O Passo
















Teu passo, inato ao meu silêncio,
beira sagradamente, a fio,
meu leito insone e, com imenso
vagar, vem vindo mudo e frio.

Sombra divina, forma pura:
Deus!... tudo o que de bom supus
– passo contido, que doçura! –
já se aproxima com pés nus.

Se, lábios entreabertos, frente
a mim, reservas ao desejo
faminto que me ocupa a mente
este alimento que é teu beijo,

mantém o enlevo ainda à parte
(no doce impasse existo e passo),
pois, ao viver só de esperar-te,
meu coração pôs-se em teu passo.



Les Pas

Tes pas, enfants de mon silence,
Saintement, lentement placés,
Vers le lit de ma vigilance
Procèdent muets et glacés.

Personne pure, ombre divine,
Qu’ils sont doux, tes pas retenus!
Dieu! – tous les dons que je devine
Viennent à moi sur ces pieds nus!

Si, de tes lèvres avancées,
Tu prépares pour l’apaiser,
A l’habitant de mês pensées
La nourriture d’un baiser,

Ne hâte pas cet acte tendre,
Douceur d’être et de n’être pas,
Car j’ai vécu de vous attendre,
Et mon coeur n’était que vos pas.


Paul Valéry

Poesia Alheia, 124 Poemas Traduzidos, [Tradução e Organização] Nelson Ascher, Rio de Janeiro, Imago Ed., 1998, p. 208-209.
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