Antes que o sol se ponha















Antes que o sol se ponha e seja tarde,
e o azul crepuscular me deite a garra,
e eu, nu, retorne à terra sem fanfarra
ou mortalha que o corpo me resguarde;

antes que murche a pétala na jarra,
e eu cale, para sempre, sem alarde,
e tudo o que me coube, por covarde,
não mais recorde a relva que se agarra

às últimas raízes da existência;
antes que eu cerre os olhos e adormeça,
e em minhas próprias células esqueça

as chamas que me arderam na consciência;
antes que a luz regresse e que amanheça,
e eu a mim mesmo já não me conheça.



Ivan Junqueira,

"A sagração dos ossos". em:_____. Poemas reunidos. Rio de Janeiro: Record, 1999.
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