Houve um Poema





















Houve um poema, entre a alma e o universo.
Não há mais. Bebeu-o a noite, com seus lábios silenciosos.
Com seus olhos estrelados de muitos sonhos.
Houve um poema: Parecia perfeito.


Cada palavra em seu lugar,
como as pétalas nas flores e as tintas no arco-íris.
No centro, mensagem doce e intransmitida jamais.
Houve um poema: e era em mim que surgia, vagaroso.


Já não me lembro, e ainda me lembro.
As névoas da madrugada envolvem sua memória.
É uma tênue cinza. O coral do horizonte é um rastro de sua cor.


Derradeiro passo. Houve um poema.
Há esta saudade. Esta lágrima e este orvalho – simultâneos -
que caem dos olhos e do céu.


Cecília Meireles
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