A Mão no Berço

"O Berço" (1872) Berthe Morisot



























Há um outro menino
que ainda não corre nos jardins
mas já tem o meu nome.

Ele também passará
muitas vezes a vau
o milagre e o mistério

e o sonho trocará
por febre e movimento,
embora possa, um dia,

sentado na calçada,
reter também nas mãos
a vida, pequenina,

fraca, incerta, fugaz,
erva tímida, finda
tão logo a toca e a vê,

hora, brisa, avezinha
a bicar o capim,
entre ramagem e vôo.

Ele também sofrerá
o frio de ser sozinho
e puxará sobre o corpo

até ao queixo o amor.
E sentirá na pele
o que o sangue lhe reza,

a forma de morrer,
sendo linguagem e beijo.
Por agora, ele apenas

respira: o meu menino
nada sabe do bibe,
da cesta de merenda,

nem dos barcos embriagados e outros versos que ficam,
adolescentes, nos passos que damos para dentro
de nós, de nossas veias, nem das mãos que retocam
o amor na memória
— a moça recostada, entre sorriso e pranto,
no corrimão, a descer a escada das manhãs,
a mulher,
com seu coque grisalho, a amparar-se no alísio
cheio de laranjas,
ele e ela,
e tudo o que canta
nesta forma de abraço que é um roçar de dedos.

Não sabe do entardecer, o meu menino. Sabe
do orvalho? Entende a cantilena das flores nos jarros e nos pastos?
Ou apenas espera que a vida o vista de lembranças e lágrimas
e do esplendor do sol após a chuva
e lhe diga ao ouvido todas as palavras da carne que o sonho não sacia,
mas que são asas e um bater de pulso que lembra a eternidade.


— Nada tenho a te dar. Empobrecido,
junto ao teu berço, peço ao inimigo
que te conceda o que me deu, o abrigo
do que em mim ninguém viu (ou viu somente

o que era sombra, búzio surdo e adeus):
o amplo espaço da pétala, o umbral
aberto para um céu sem morte — enfim,
a chegada à partida, o estar aqui

a olhar o mundo, tendo o mundo e o tempo
a florir sob as pálpebras, sentindo
o deserto estrelado, o mel vertido

no que foi um destino sem certeza
outra que a de ser homem. Peço. E vejo
tua infância no colo da beleza.


Alberto da Costa e Silva
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