Receita para Ano Novo























"Se você pensa que sabe; que o ano novo mostre o quanto não sabe.
Se você é muito simpático, mas leva meia hora para concluir o seu pensamento; que o ano novo ensine que explica melhor o seu problema, ou conta melhor o seu caso..., aquele que começa pelo fim.

Se são sempre os outros que são isso e aquilo; que o ano novo ensine a olhar mais para você mesmo.

Que o ano novo ensine que não existe ano novo para a natureza. É tudo um fluxo só.

Se você pensa que viver é horizontal, unitário, definido, monobloco; que o ano novo ensine a aceitar o conflito como condição lúcida da existência.

Felicidade é disponibilidade com paz; que o ano novo ensine a aproveitar os raros momentos em que ela surge.

Que o ano novo nos ensine, a todos, a dizer as verdades nunca na hora da raiva. Que desta aproveitemos a forma direta e simples pela qual as verdades se nos revelam por seu intermédio; mas para dizê-las depois, quando os bloqueios voltam e é mais cômodo "deixar pra lá".

Que a lucidez da raiva guardada para depois, quando ganhar a dimensão da calma mas perder a energia agressiva, sirva para expressar nossas franquezas com carinho e cordialidade.

Que o ano novo ensine que tão ou mais difícil do que ter razão, é saber tê-la.

Que aquele garoto que não come, coma. Que aquele cara que mata, não mate. Que aquela timidez do pobre, passe. Que a moça esforçada se forme.

Que o jovem, jovie. Que a moça, moce. Que a luz, luza. Que a paz, paze. Que o som, soe. Que o sol, sole. Que o ninho, aninhe. Que a cor, core. Que o abraço, abrace. Que o perdão, perdoe. Que a letra, letre. Que o negro, negre. Que a flor, flora. Que o coração, coraçõe. Que a reza, reze. Que a criança, criance.

Que tudo vire verbo e verbe. Verde. Como a esperança.

E se ano novo não existe, exceto na imaginação da gente e se nesta tudo é possível, então que ele sirva para transformar tudo em Verbo. Como no princípio. Pois do jeito que o mundo vai, dá vontade de apagar e começar tudo de novo."



ARTUR DA TÁVOLA
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