Ritos, crenças e rotinas
















Ritos, crenças e rotinas
Erva ou medicina
Gravata, crachá e microondas
e os alarmes e os despertadores
e os metrônomos
máquinas de ponto


Se varre e deixa o chinelo virado
Cuidado, a mãe morre
O que nos socorre são os amuletos
são nossas muletas
Algo a que a gente possa se agarrar
E carregar no peito
De pingente, no colar


Pra não colidir com os astros
com a força dos números
pra que possa a cabala...
três vezes, sete ondas, aos pulos
bate na madeira dura
afasta a inveja e a ira
e a doença e o quebranto
e a extensão do pranto
traz de volta a pessoa amada
e a beija e se benze
em três dias, três vezes


Faz figa
não deixe que alguém rogue praga
os dedos cruza
Parece TOC, parece truque
um estoque de manias ou contrastes
algo que inspire e equilibre


Como diz o cancioneiro
quem ilumina as rotinas
é o ... meu pequeno talismã
cabe na mão a figura do santo
a fé no orixá ou no terço
num deus, no nada ou em algo
no semáforo


na foto do filho
no relógio de ponteiro
parado no horário do nascimento
da pessoa mais amada


Somos inseguros
nos sentimos ameaçados
e buscamos abrigos
associações nos objetos
que ejetam o desespero
diminuição dos riscos
parecemos protegidos
contra as adversidades


Por isso
amarra a fitinha no pulso
faça três desejos pro gênio
antes de apagar a velha, guarda
o trevo de quatro folhas


E se o décimo terceiro apóstolo foi Judas
que chegou na santa ceia
é o décimo terceiro salário que te ajuda
quando a coisa tá feia


qual o problema com o treze?
tudo é dicotômico e eu questiono
sou metódico, meio cético, sistemático
de El Loco a Zagallo
que acho que gostaria do meu nome
Alan Salgueiro tem treze letras


Novenas, correntes
peregrinos, batucadas
jejuns e orações
agradecimentos e oferendas
e promessas pagas
e palavras mágicas
como lidamos com as incertezas?
como buscamos nossas defesas?


O goleiro faz das balizas seu templo
beija as traves, faz a corte
todo o ritual do esporte
Sai da cama com o pé direito
O primeiro a pisar a grama
entra em campo
e até no gol perdido há menção
pro pai, pro filho e pro espírito santo


A mandinga e a simpatia
causas impossíveis
Aquele torcedor lendário
que chacoalhava o galho
de arruda bem perto da cara
pedindo ajuda, qualquer livramento
nem ele evitou o rebaixamento


Eita diacho
miué encalhada é bicho engraçado
castiga a imagem
deixa o San tantoin de cabeça pra baixo


Azar no escuro dos espelhos quebrados
sete anos
ou debaixo das escadas
não tragam maus fluidos


No nosso íntimo
os concretos são insuficientes
daí o credo
pedimos reforços pra forças maiores


quem dera fosse fácil ser tão confiante
e independente e ter sempre um chão
quem dera que todos os ritos se resumissem
a dar abraços, entregar as flores

e fazer a saudação!



Alan Salgueiro

Imagem da Internet
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